jusbrasil.com.br
4 de Abril de 2020

Como os escritórios digitais abrem horizontes para a jovem advocacia e quebram velhos paradigmas do mercado jurídico

Rodrigo S Ferreira, Advogado
Publicado por Rodrigo S Ferreira
há 4 meses

Diferente da maioria daqueles que optam por cursar direito, eu nunca fui um daqueles que sonhava em passar na OAB só para depois passar em um concurso público para a magistratura, promotoria ou para delegado.

Os meus olhos brilhavam para outra coisa. O que me deixava sem ar e entusiasmado pelos ofícios jurídicos estava justamente na advocacia privada (e no empreendedorismo). Eu queria ser advogado – e ter meu próprio escritório.

Após a conclusão da graduação e aprovação na OAB, intensifiquei o estudo de mercado (que já realizava durante o curso), e confesso que, para quem almeja abrir um escritório tradicional, o cenário não é muito animador.

Além da extrema concorrência no âmbito jurídico, há uma série de problemas que o (a) jovem advogado (a) enfrenta, como o custo altíssimo de aluguéis de salas comerciais, além de água, luz, papelaria, material de escritório, telefonia e internet... a lista é longa.

Como a jovem advocacia pode, desta forma, se inserir no mercado e competir em pé de igualdade com escritórios antigos e consolidados no mercado?

É aí que entra a internet.

Não muito tempo atrás, nenhum grupo corporativo ousaria investir e abrir um banco e ter como rivais as já gigantescas instituições financeiras, com milhares de sedes espalhadas pelo país, patrocinando grandes eventos e com direito a comerciais nas maiores emissoras nacionais de televisão.

Hoje, vemos os novos bancos, completamente digitais, em pouco tempo confrontar as mais tradicionais e poderosas instituições financeiras do mercado, fazendo muitas pessoas trocarem a tradição e a suposta confiabilidade das sedes físicas pelo conforto e praticidade da tecnologia e do atendimento digital – transformação digital, meu amigo.

Isso mostra não só a viabilidade, mas a tendência deste modus operandi. Os escritórios digitais de advocacia são uma realidade.

No Poder Judiciário, por exemplo, audiências de conciliação e mediação já ocorrem via Skype.

Por isso, separei alguns pontos cruciais para concluir que os escritórios digitais são a tendência do futuro da advocacia:

Custo reduzido

Não é segredo para ninguém que ter um local físico é extremamente caro e burocrático. Desde a escolha do local, a realização do contrato de locação, eventuais reformas, compras de insumos, o gasto é alto e fora do orçamento da grande maioria de um advogado recém-formado. Além disso, são custos operacionais que não geram nenhum retorno direto, mas demandam lucro constante para manter.

Para o escritório digital, o custo é muito mais baixo. Basta um celular e um notebook com bom acesso à internet e pode ser realizado o mesmo trabalho que seria feito e um pomposo escritório estilo Suits.

Aumento da qualidade de vida

Não sei vocês, mas se tem uma coisa que me tira do sério é o trânsito. Ainda mais o transporte público. Não é incomum passar de 3 a 4 horas por dia preso no trânsito da capital de São Paulo. Muitos já não consideram isso ‘’ossos do ofício’’.

Além de tempo jogado fora e do cansaço das lotações dos trens e metrôs e no trânsito caótico, é mais um custo reduzido.

Poucos dias atrás tive um bom diálogo com uma colega, também advogada, que gasta, em média, 2h por dia para ir, e 2h para voltar do escritório em que trabalhava.

Ou seja, essa advogada passava em média 20h por semana dentro do transporte público. O curioso é que o mesmo trabalho que ela fazia no escritório, podia fazer de qualquer lugar. E mais, se pudesse trabalhar de casa, por exemplo, seria possível terminar todas as tarefas da semana em dois ou três dia de trabalho, considerando as 20 horas ‘’extras’’ em sua agenda semanal.

O tempo que seria desperdiçado pode ser usado de forma realmente produtiva, realizando atendimentos, respondendo e-mails, confeccionando peças processuais, trabalhando no marketing e na presença digital do escritório, ou até mesmo descansando.

Atendimento dinâmico e rápido

No modelo clássico de escritório, há toda uma burocracia para agendamento de reuniões, em que uma das partes precisa se deslocar (às vezes atravessar a cidade), para ter uma reunião, que muitas vezes podia até ser resolvida com um telefonema ou um e-mail.

Por isso o escritório digital preza pelo atendimento online, em que reuniões são feitas por plataformas como o Skype ou até mesmo o Whatsapp, de forma rápida, dinâmica e confortável. Além de manter a qualidade de vida boa, evitando deslocamentos, isso gerará mais valor ao seu trabalho, te colocando à frente dos escritórios físicos e tradicionais.

Conclusão

O mundo jurídico sempre foi resistente às mudanças e apegado a tradição. Muitos ainda têm como ideia de trabalho o advogado sentado numa mesa rodeado por uma suntuosa biblioteca de livros jurídicos, numa cadeira que lhe dê uma pose de rei, e uma mesa rodeada de documentos. Aos poucos, esse paradigma vai chegando ao fim.

Cada vez mais leva-se em consideração a praticidade, a modernidade e a objetividade em qualquer prestação de serviço. Os clientes se preocupam mais em ter um atendimento rápido, moderno e de qualidade do que no seu terno brooksfield ou se o logo do seu escritório na parede é feito de mármore.

O advogado 4.0, mais do que ninguém, já se ligou disso. Mas isso é assunto para um outro texto.

13 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Por força das circunstâncias, eu já tenho atuado dessa forma há dois anos. Meu escritório físico, no entanto, continua lá e confesso que cada dia menos preciso ir lá. Porém, a clientela ainda precisa de um tempo para se acostumar com isso e muitos ainda só se sentem realmente a vontade e amparados cara a cara com seu advogado dentro do ambiente físico de um escritório convencional. Por essa razão, hoje ainda é preciso se render a um período de transição. Com o envelhecimento da população, em breve o perfil dos clientes já serão majoritariamente de pessoas que cresceram à vontade com o universo on line. E até irão preferir advogados práticos e modernos. Mas esse perfil ainda está longe de ser a maioria da clientela de qualquer carteira. Portanto, embora eu ame tudo isso, prefiro seguir no meu plano híbrido por alguns anos ainda. Mas enfim, o futuro é isso aí mesmo. Até a advocacia corporativa no futuro terá um escritório base para organização empresarial e contábil do escritório, porém, funcionarão em espaços reduzidos pois até mesmo seus sócios e associados irão trabalhar nesse modelo proposto pelo artigo. Talvez tenham uma recepção, os escritórios administrativos e uma ou duas salas de reuniões e até mesmo de convenções (em casos de escritórios bem maiores). Mas a necessidade de cada advogado ter sua salinha individual ali? Isso vai sumir com o tempo. Porém, as mudanças são mais lentas que gostaríamos, então sugiro cautela antes de apostar todas as fichas nesse modelo. Ainda é vantajoso participar com colegas de um espaço físico compartilhado para atender pessoalmente os clientes mais tradicionais, que ainda são, infelizmente, uma maioria esmagadora. continuar lendo

Olá Christina, como vai?

Ótimo comentário. De fato, todo e qualquer paradigma é rompido paulatinamente, ainda mais no mundo jurídico.

É fato que, por vezes, os clientes mais velhos geralmente são fechados a este tipo de atendimento 'menos ortodoxo'. Contudo, como você bem pontuou, com o passar do tempo a tendência é que os clientes mais jovens e modernos se tornem a maioria e é aí que temos que manter os olhos - no longo prazo.

Quanto ao hoje, acredito ser válido esse atendimento híbrido. Pelo menos aqui em SP, nos últimos anos pipocaram centros de coworking que permitem que o advogado só alugue uma sala quando realmente precisa dela (por horas ou dias específicos), o que o mantém livre de encargos fixos, mas também permite o bom e velho face-to-face.

Obrigado por compartilhar sua experiência.

Boas festas! continuar lendo

Parabéns pelo artigo, Doutor Rodrigo!

Trata-se de uma nova tendência na advocacia, já que os escritórios convencionais, como dito, não estão dando um retorno esperado e, certamente, tornar-se-ão supérfluos.

Forte abraço, meu amigo. continuar lendo

Olá Wellington,

Muito obrigado pelo feedback! continuar lendo

Belo ponto de vista, Dr. Rodrigo!

A jovem advocacia encontra-se realmente com dificuldades financeiras, e custear todas estas despesas é um tanto desanimador para quem está iniciando sua carreira jurídica. Como foi bem pontuado, o mundo jurídico realmente é bem apegado a tradição, e muitos clientes também estão mais habituados com atendimentos em escritórios. Porém, a sua ideia é inovadora, apesar de que muitos advogados já atendem desta maneira, e isto, torna viável a vida profissional do jovem advogado e o tempo gasto do cliente, que muitas vezes precisa deixar seus afazeres para alguma se deslocar até o escritório. É uma praticidade que deveria sim virar tendência, enfim, parabéns pelo artigo.

Abraços. continuar lendo

excelente entendimento continuar lendo